Arquivo para Outubro, 2007

O fantástico cinema fantástico

Outubro 22, 2007

Com o aumento de público nos filmes fantásticos, Porto Alegre destaca-se ao apresentar o terceiro Festival de Cinema Fantástico da capital.

O cinema fantástico vive seu grande momento. Uma diversidade de títulos faz salas de cinema ao redor do mundo lotarem de jovens e adultos. No Brasil não poderia ser diferente. O público de todas as idades se reúne em busca de sagas de terror, ficção científica e fantasia. De Transformers até Clã das Adagas Voadoras, é possível encontrar um amplo leque de opções para os apreciadores do cinema fantástico.
 
O gênero fantástico abrange três das principais vertentes cinematográficas: a fantasia, a ficção-científica e o horror.  Sendo assim, ao contrário do que muitos pensam, não é um gênero que vive à margem do cinema tradicional. Uma parte considerável dos filmes em cartaz na capital hoje, segue a linha fantástica.
 
A temática do fantástico renova-se constantemente. Histórias em quadrinho viram superproduções nas telas de cinema, e o terror parece nunca sair de moda. Uma nova safra, representada pelo horror asiático, e por diretores como Alexandre Aja, Alex de La Iglesia e Rob Zombie ganham prêmios e destaque na nova forma de se fazer cinema para assustar.
 
Festivais europeus como o organizado pela associação Melies, reúnem nove grandes eventos oficiais de cinema fantástico por toda a Europa. Estes nove festivais principais são apoiados por outros 14 festivais menores, tendo como representante de peso o Fantasporto em Portugal que no ano de 2007 exibiu 140 filmes fantásticos.

Mas não é só na Europa que festivais apóiam e divulgam o cinema fantástico. Em Porto Alegre, entre os dias 28 de setembro e sete de outubro ocorreu o III Fantaspoa, o Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre. Idealizado por um grupo de amigos durante uma viagem a Montevidéu em 2005, o festival cresceu e conquistou público.
 
O Fantaspoa é uma realização do Clube de Cinema de Porto Alegre. O Clube é uma instituição de 59 anos de idade que realiza sessões de cinema aos finais de semana, na capital. As sessões ocorrem na maioria das salas de cinema de Porto Alegre. O Clube de Cinema também apóia diversos festivais da cidade, além de promover por três anos o Festival de Cinema Fantástico. Este ano, o festival teve a direção de André Kleinert, João Pedro Fleck e Nicolas Tonsho, os dois primeiros, fundadores oficiais do evento.
 
A primeira edição do Fantaspoa começou pequena, com público de 900 pessoas. De lá para cá algumas modificações estruturais foram feitas. De seis dias de duração, o festival passou para dez dias. Hoje, na terceira edição, 2100 fãs de cinema fantástico marcaram presença. João Pedro acredita que o aumento de público se deve ao planejamento cuidadoso que a edição deste ano recebeu. “Tudo foi muito bem planejado pra que acontecesse dessa maneira”, conta Fleck, e afirma que “de 2007 para 2008 será diferente, se o público continuar aumentando aí sim é que iremos perceber a grandiosidade do festival”.
 
Neste ano, o festival contou com o apoio da Cinemateca Paulo Amorim,  Sala de Cinema P.F. Gastal e com o Cine Santander Cultural. A programação foi a mais diversificada das três edições, trazendo ao público desde obras clássicas datadas do ano 10 do século passado até as mais novas produções do cinema fantástico mundial.

Nas telas podia-se ver desde clássicos do cinema fantástico da década de 30 até chineses com asas (Bird People in China, do diretor Takashi Miike) e Elvis Presley e JFK ainda vivos em um asilo (Bubba Ho-Tep, do diretor Don Coscarelli). Do Além, produção oitentista com imagens fantásticas dirigida por Stuart Gordon, e Lunacy, de Jan Svankmajer, filme que aborda a loucura de forma não convencional, também estavam em cartaz mostrando a diversidade de gêneros do festival.
 
Mas trazer títulos tão diferentes exige da organização do evento muito trabalho. João Pedro Fleck afirma que é “uma coisa meio complicada”. Nicolas Tasho explica: “Nós estudamos cuidadosamente quais filmes poderiam ser exibidos para atrair o maior público possível”.
 
A terceira edição do Festival de Cinema Fantástico da capital também trouxe cursos e debates abertos ao público. Ao término das sessões era possível debater com jornalistas, escritores e cineastas o conteúdo recém assistido nas telonas. Tirar dúvidas e conhecer melhor o trabalho dos diretores, uma troca que possibilitou aos fãs do terror e da ficção-científica aprender na sala de cinema.
 
O cinema fantástico atinge a todos. Seja para aqueles que assistem X-Men III ou aqueles que preferem A Volta dos Mortos Vivos, iniciativas como a destes rapazes em promover um festival que valorize e divulgue o cinema fantástico é um novo estímulo. Porto Alegre é desde 2005, referência na divulgação deste universo que ronda os filmes de fantasia, ficção-científica e horror, através do Fantaspoa. O que fica desta terceira edição do festival, além dos sustos, é o estímulo para que novas gerações se interessem por esta vertente do cinema que fascina a todos com seus monstros e zombies.

foto de _tigermilk em 04/10/07

Carta de desistência e um breve adeus.

Outubro 12, 2007

“Não consigo fazer nada além de ficar sentado em meu sofá fumando. Eu poderia sair e pegar um pouco de sol, mas fico aqui. Ai então me sirvo de café e começo a escrever. Escrevo coisas sobre minha vida patética e me acho um bom escritor. Meu eu lírico é egoísta e me restringe. Eu poderia escrever sobre coisas bonitas, histórias interessantes. Talvez eu até pudesse expressar alguma opinião sobre algo. Mas meu eu lírico prefere minha vida patética de fumante entediado. Esse egocentrismo lírico me gera uma certa encomodação. As vezes eu tento falar com ele, bater um papo, dizer que assim não dá pra ficar. Que existem outras coisas além de toda essa profundidade emocional que ele quer demonstrar. Mas meu eu lírico não me escuta! Tomou conta, se adonou da cena, e eu não consigo fazer nada. Só consigo fumar meus cigarros e tomar mais um pouco de café. Fernando Pessoa já sabia “Todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente rídiculas”, mas meu eu lírico não sabe. Eu tento, eu juro. Mas eu não consigo. Vou ficar com meus cigarros e minhas palavras esdrúxulas. Fui vencido.

Desisto,
adeus.”

Carnificina eólica

Outubro 12, 2007

E tu me vieste como vento

tempestade acinzentando o céu

e as tristes crianças correndo pra dentro de casa acoadas com os trovões.

Tu me vieste como vento,

ventania seca, afiada navalha levantando o pó

- insubstância.

Tu sequer chegaste como brisa

não acalentou meu rosto

sem calafrios, sem som.

Tu foste o vento que arranca raízes,

gado morto no pasto e roupa rasgada no varal.

Tu, carnificina eólica.

A história do John.

Outubro 11, 2007

25 de janeiro de 2008. Esta é a data prevista para o lançamento do novo filme do John. Assim, pelo primeiro nome mesmo, porque agora ficamos íntimos. Depois de tanto tempo, já era hora desse boina-verde nada articulado dar uma abertura. John Rambo, o quarto e definitivo filme da série protagonizada por Silvester Stallone, estréia início do ano que vem em telas americanas. A temporada é ruim, eu sei. Estrear no inverno significa que o filme não tem colhões para concorrer com as superestréias do verão. Mas colhões é algo que todos nós sabemos, não deve faltar ao exterminador de soviéticos mais conhecido do cinema mundial.Depois de por um ponto final na vida do Rocky (o boxeador pelo qual sou perdidamente apaixonada, admito minha cruz. Eu simplesmente adoro o Stallone em Rocky I e II) chegou a vez do John Rambo pendurar os coturnos.

No filme, 18 anos depois de ir pro Afeganistão quebrar um galho, o Rambo ficou tranquilaço e adotou uma vidinha pacata em Bangkok. Daí são as primeiras cenas do trailer. Um Stallone monstruosamente grande – e gordinho, afinal a idade literalmente pesa – dá uma de taxidriver de canoinhas pra turistas malas. É assim que ele acaba conhecendo mais um desses americanos que quer MUITO salvar o mundo (leia-se missionário de direitos humanos) que lhe pede ajuda. Voluntários que levam suprimentos para Mianmar estão desaparecendo e apenas JOHN RAMBO poderá salvá-los.

Aí que começa uma luta básica do Rambo contra: 1- os seqüestradores. 2- os ladrões de suprimentos. E por último, mas não menos clichê, 3- o corrupto exército desse país atrasado. Mas não é o Rambo que resolve tudo não. As vezes um grupo de jovens anarco-revolucionário e acima de tudo mercenário faz umas pontas e mata umas pessoas más.

Por mais que o John Rambo não queira se meter nessa coisa de salvar as pessoas e tal, afinal três filmes calejam um personagem, o ex-milico acaba aceitando e aí que começa a carnificina. A julgar pela quantidade de sangue no trailer, John Rambo vai ser um dos filmes mais pesados da série. Pesado daquele jeito, tendendo a um absurdo que nos diverte. A ação começa com uma formidável decapitação no minuto 2:06. Logo é seguida por muitos tiros, explosões, sangue, e culmina com o Rambo arrancando com as próprias mãos a traquéia de um pobre coitado nem tão coitado assim. Aí temos mais corridas, cães, mais tiros, a mocinha do filme é claro (é a Julie Benz. Essa mesmo que tentou ser a Buffy-caça-vampiros e não conseguiu. Ainda bem né, fãs de Buffy!) e um dos finais de trailer com uma das frases mais fantásticas que eu já ouvi.Silvester Stallone é referencia. Sua interpretação é única. Nenhum outro seria um Rambo tão bom. Seja pela falta de articulação característica, seja pelos olhos caídos que só o Stallone tem, seja pelo jeito único que ele amarra a faixa na cabeça antes de atirar e matar 50 pessoas, nenhum outro ator seria a metade do Rambo que Stallone foi. John Rambo pode até estrear na baixa temporada do cinema americano, mas nada vai impedir de encerrar com fuzil de ouro a saga do militar mais foda da história. Rambo, vamos sentir saudades.

TRAILER AQUI

Transborda-me.

Outubro 11, 2007

Eu costumava amar você todas as manhãs. Todas elas. Em todas eu amei você. Você quase sempre dormia, ou escovava os dentes, ou tomava café extra forte para os seus dentes amarelarem mais e você continuar escovando e escovando milhares de vezes. E em todas essas manhãs eu te amava. Todas elas. Se houve uma manhã naquele tempo, nessa manhã eu te amei. Amava seu sorriso e o seu cabelo desarrumado. Amava a pressa, o corre-corre, a chave perdida. Amava quando esquecia a carteira de motorista e voltava cinco minutos depois reclamando e gritando e batendo a porta atrás de ti. Em todas essas manhãs eu te amei. Amei o teu cheiro e a tua pele macia. Te amar desde a hora em que eu acordava. Todas as manhãs. De todas, não sei de uma em que não pensei em amor ao te ver. Pensar em amor todas as manhãs, era no que você me fazia pensar. Amor. E esse amor escorria pelo meu corpo e molhava o chão do corredor, inundava a casa, transbordava, vazava pelas janelas e molhava as pessoas lá embaixo. A faxineira esfregando panelas molhava a barra do vestido no amor que escorria de mim todas as manhãs, entre as oito e às dez e meia. O nosso gato desviava das poças que eu deixava pela casa enquanto andava. Amor liquefeito escorrendo. E então quando chegava noite e mais nenhuma gota havia em mim, eu deitava ao teu lado e esperava mais uma manhã chegar. Porque em todas as manhãs eu te amei. Em todas elas.

Eu costumava te amar todas as manhãs.
Costumava transbordar também.
Liqüefazia-me.

Margot

Outubro 11, 2007

A Margot vem me trazendo problemas.
Minha Margot mudou.

A Margot anda vazia, caminhando de meia soquete pela casa.
Anda de hobby, cabelo armado, sem maquiagem.
A Margot tá bebendo, dormindo e resmungando muito.
A Margot tá murchando, chorando, e teimando comigo.
A margot tá perfumando, amando e rindo menos. Bem menos.
A Margot tá velha Pai do Céu.

Cadê aquela Margot, que eu tirei de uma pornoxanxada?
Aquela cheirosa e morena.
Safada, feliz.
Margot, cadê tu minha nêga?

A Margot anda com chinela de velha, tá que nem minha mãe.
A Margot reclama que não tem nada na vida, nem um filho nesse mundo ela deixou. Ela toma uns goles de pinga e me culpa.
Disse que quando fazia pornoxanxada não era assim. Que era uma estrela, que nao tinha pouso nem porto.
A Margot tá dizendo que eu roubei a vida dela naquele anel.
Que eu era moço formoso, e que ela era boba. Que agora podia tá fazendo filme, novela, praticamente uma Suzana Vieira.

Mas a minha Margot tá de meia soquete na sala.
Cochilando, baba escorrendo no cantinho daquela boca carnuda que ela teve um dia.
Vendo Domingo Legal na tevê.
Cadê aquela minha Margot?
Margot, cadê tu minha nêga?

Ela tá resmungona e ancuda, tá murcha a minha rainha.
Murchou os peitos graúdos, a bunda redondinha, os coxões que meu Deus dó Ceu.
Murchou o bom humor e o xamêgo da Margot.
Minha Margot mudou.

Desculpa benzinho. Teu nêgo ainda te ama.