a doença

Setembro 29, 2008

Tinha uma doença. Uma estranha doença que o levaria, logo, a morte. Era estranha a vida desde que percebeu a doença se manifestar pela primeira vez. Tudo começava sempre bem e parecia ser bom e agradável. Esperança pastosa sendo passada no corpo como um leve creme-felicidade. Mas não durava muito. Durava pouco tempo na verdade. Muito pouco. Apenas o suficiente para a doença se manifestar, tomar conta, invadir todo seu corpo e então. Então. Quando via estava deitado sobre azulejos imundos, após ter vomitado muito. Muito. Fraco como se por dias não houvesse se alimentado, tonto como se por eras houvesse bebido, longe como se nunca tivesse estado sempre ali. Era a doença.

Demorou até percebê-la. Entendê-la. Tomar consciência de que jamais se curaria, jamais teria sua vida de volta. A doença havia chegado, e todos haviam partido. Demorou muito tempo até se levantar do chão azulejado e sujo. Demorou muito, muito tempo. Talvez tenha ficado deitado por dias. Fraco sem comer sem beber sem cheirar sem sorrir sem viver sem ser absolutamente nada além de. Além da. Doença.

E ao olhar no espelho e ver ele, e não a si mesmo, gritou muito muito muito. Ele era ele, que não era mais a si mesmo – o puro e simples ser eu não havia mais. Não era ele, mas sim o outro que amara tanto tanto tanto, ali, vestindo seu interior, movimentando-se em frente ao espelho do banheiro de azulejos azul sujos azulejados. Era aquele que tinha dado o sentimento bom. O sentimento agradável, aquele que quase foi um creme-felicidade sob a pele ressecada. Era ele. Havia se tornado o outro. Pura e simplesmente era o outro. Como se tivesse pego outra pele e vestido sob a sua. Por dentro ainda tão inteiro -apesar de doente- e por fora tão o outro amor que tinha ido, tão o outro que não o quis, tanta dor de ser o que mais se ama e não se tem.

Nos primeiros dias solitário, com a nova pele, tentou entender. Tinha medo de sair na rua, de encontrar qualquer um que o reconhecesse, ou reconhecesse ao novo eu que ele era. O quão aterrorizante foram esses dias, é impossível de dizer. Por horas chorava e gritava em desespero. E após ter bebido e cheirado tudo que havia em seu pequeno apartamento térreo no centro de alguma cidade que poderia ser São Paulo, ou qualquer megalópole em questão, ele decidiu simplesmente sair. Abriu a porta e saiu. Para nenhum lugar em específico, apenas para por a nova pele a prova do sol, da chuva, da noite, a prova do toque de qualquer um, a prova de qualquer coisa que não fossem azulejos ou um sofá podre também azul. E ao sair andou e andou, não lembra se era dia ou noite ou tarde aquecida pelo mormaço. Saiu e andou e foi tudo bem. Tudo normal. Ele era ele, e era o outro, e ninguém via. Estava tudo bem. Então quase acostumou-se. Viveu algum tempo sendo ele e viveu bem, a dor do começo tinha ido embora e a pele nova agora estava morena do sol dos dias que se passam e que levam a gente pra lugar nenhum. Mas o viver quase bem em um lugar quase bom não abrandou a doença que ele ainda não sabia que tinha, mas tinha, e isso foi o que aconteceu.

De novo veio a sensação de felicidade que as vezes surge na vida das pessoas. Ele sendo o outro que agora o era, sendo ele, o do presente e não mais o do passado. Sendo a fusão do anterior e do atual. Então ele vivenciou alguma coisa quase nobre. Algum sentimento quase bom. E foi quase muito bom por um tempo, até ela vir de novo. A doença veio, invadiu o corpo novamente, e quando deu por si estava fraco muito fraco. Deitado sobre azulejos imundos, após ter vomitado muito. Fraco como se por dias não houvesse se alimentado, tonto como se por eras houvesse bebido, longe como se nunca tivesse estado sempre ali. Era ela novamente (no futuro ficou tão íntimo da doença que passou a chama-la apenas de ELA, ou A, ou). E dessa vez ele levantou-se mais rápido e olhou no espelho. E não gritou não fez som não fez lágrima nem gesto. Sentou no chão e fechou os olhos com força até passar até passar até passar.

Mas não passou e quando sentiu frio levantou-se do chão e foi até o sofá. Não era mais ele novamente. Nem o primeiro que havia sido, nem o segundo que o era antes. Agora era o terceiro, o que havia quase sido bom novamente. Era uma nova pele. Um novo sorriso. Um novo jeito de andar falar amar pensar agir correr comer foder dançar chorar sentir medo frio calor amor tesão. Aquilo tudo que antes ele amava no outro agora estava nele e era ele. E era assustador, mas nem tanto. Alguns dias ficou em casa ponderando o novo eu que era novamente. E se vendo e se tocando e amava tanto o outro que era ele agora… E teve medo pois esse ainda não havia ido embora. Como seria então, de agora em diante? Mas teve fé, e esperança, e esses sentimentos nobres que as vezes assolam nossa alma, e saiu de casa e foi ter com ele. Com o ele que ele era, e com o ele que ele amava. E pensou que talvez não importasse, que talvez fosse bom ser igual ao que ele mais queria, que talvez o outro até o amasse então. Mas chegou lá e chorou. O outro não o reconheceu. Deve ser difícil mesmo para alguém se ver em outra pessoa. Na verdade não vemos bem visto assim, com os olhos sabe. Vemos com outras partes, coisas etéreas. O outro, vamos chamado de Teo, para facilitar. Teo não se viu nele, apesar dele ter se tornado Teo. Teo viu nada além de milhares de pequenos defeitos que começaram a incomodar. Mas não eram defeitos dele, eram defeitos de Teo, logo Teo não se amava, e não amava a ele então. Então Teo foi embora.

E ele chorou muito porque era agora não o primeiro, nem o segundo, mas sim um terceiro solitário, e pensou que tudo acabaria ali. Mas a doença sempre foi mais esperta do que ele, e todos os eles que ele pudesse vir a se tornar. Sempre que ele passava a amar alguém, a nutrir um sentimento leve, e puro, e quase bom, quase alegre. Sempre que as coisas se encaminhavam para uma paixão, para algo qualquer desse tipo de emoções que humanos teimam em ter apesar de só trazer problemas, sempre que algo assim acontecia, a doença vinha. A doença vinha e o alterava, o transformava naquilo que ele mais queria, mais amava, aquilo que você jamais deve ser, o outro. E ele sempre se tornava o outro. E nunca nenhum outro ficava com ele. É terrível você se envolver com você mesmo. Infinitos são os abismos em que podemos nos perder se nos amarmos de mais. Logo, todos os outros que ele se tornava, fugiam.

Então não era mais o terceiro, nem o quarto, havia perdido o número já. Tantas transmutações, tantas vezes a doença nele veio e mudou tudo. Tantos outros corpos ele já havia vestido, tantas outras peles e sorrisos e jeitos de andar. E a doença vinha sempre. E os azulejos sempre lá, sujos e azuis. E sempre o sofá para dar um pouco de coragem antes de sair a rua sendo outra pessoa inteiramente nova, mas inteiramente velha e antiga, e mudada a cada segundo. Cada gene novo que nasceu depois da doença, cada história acumulada em camadas e camadas de pele sobreposta, de sentimento sobreposto, de alma comprimida por uma casca cada vez mais grossa, e a doença sempre ali. Então era o que? Sua centésima versão? Como alguém pode, nessa vida, amar tanto?

Mas ele tinha tentado parar. Tinha tentado vencer a doença, e quando começava a sentir os sintomas, aqueles de sempre, aquela coisa quase boa, quase pura, quase inteiramente feliz, ele tentava fugir. E ia embora e se fechava em seu apartamento. Mas de nada adiantava. Quando via estava no chão, com os azulejos. Nem no espelho se olhava mais. Sabia exatamente no que havia se tornado. Por vezes pensou em se matar. Por vezes pensou em procurar ajuda. Mas no fundo era quase bom, ao menos por um tempo ainda, manter consigo um pouco ou quase tudo daqueles que ele mais amava. Apesar de ser a fonte do desaparecimento de todos, transformar-se neles era o que o mantinha vivo ainda. A fusão total de gostos, e toques, e sonhos. Ser os outros era quase melhor do que ser a si mesmo, ele nunca se amou na verdade. Ninguém nunca se ama.

Foi assim que, doente e consciente de sua doença, ele seguiu. Seguiu sendo ele, sendo todos, cometendo os mesmos erros, sentindo as mesmas coisas quase boas, quase ótimas, quase vivas que ele sempre sentia. Sendo profundamente doente, profundamente lúcido, profundamente só, sendo tantos tão profundamente profundos em um único tão raso e amedrontado. Ele seguiu, resignado com a morte eminente de toda e qualquer chance de ser completamente único, ou unicamente completo, ou, simplesmente, feliz.

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Uma resposta para “a doença”


  1. Eu devia tentar fazer um comentário todo pomposo, para dizer com certo ar de intelectualidade que gostei do texto, mas… Aff, enfim, eu gostei, e isso é o bastante.


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